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Sempre existiu e sempre existirá a turma que acredita no mantra “This Time is Different”. Inclusive o livro da Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff com esse mesmo nome aborda de forma ímpar essa cegueira de alguns agentes econômicos nos últimos 100 anos. As explicações variam: Agora somos mais espertos; As antigas metodologias de precificação de empresas não se aplicam mais; O mercado está mais sofisticado com operações de securitização; Vivemos um boom de produtividade graças ao advento da internet, e por ai vai.
Sinto que atualmente estamos quase assimilando ou construindo uma nova desculpa para continuar acreditando que os mercados globais (bolsa de NY, IBOVESPA, etc.) tem tudo para continuar subindo, apesar dos enormes indicadores que teimam em mostrar o contrário.
Comecemos pela mudança do speech do Presidente do Federal Reserve Jerome Powell de novembro para março/2019. De um tom absolutamente duro (“hawkish”) para duas oitavas abaixo em termos de “dovishness”. A bolsa festejou recuperando em partes o que havia caído em outubro do ano passado, mas a pergunta mais importante seria: O que será que fez o FED mudar de posição tão rapidamente? Penso que essa mudança no discurso da autoridade monetária norte-americana soa muito mais preocupante do que festeira. É difícil perceber que por trás dessa mudança, o FED já esteja antecipando um crescimento bem menor da economia dos EUA, do que antecipado pela maioria dos agentes econômicos?
Ainda no roll de notícias não tão boas, temos menor crescimento da economia chinesa que deve demandar menos commodities metálicas e mais commodities agrícolas do que previamente antecipado, além da tensão comercial com os EUA.

Parando no meio do mapa mundi, sem explorar ainda o complicadíssimo BREXIT, que deixarei para o final desse texto, com toda pompa de um Parlamento Britânico. Na zona do Euro temos a Itália já em recessão, a Alemanha flertando com um cenário sombrio, dada a variação anual de suas exportações. Isso sem falar da crise na Turquia, onde bancos europeus continuam expostos em US$168bn em ativos turcos. Mais uma pergunta capciosa seria, será que se for preciso, Donald Trump permitirá que o FMI empreste recursos para a Turquia, mesmo que isso limite a necessidade de alguns governos europeus em capitalizar alguns bancos que se encontram expostos àquele país?
Obviamente que o cenário da economia global está longe de ser o ideal, mas ainda poderíamos elucubrar um pouco como deverá ser o desfecho do BREXIT, se ocorrer. Infelizmente a ideia do BREXIT começou com um interesse provinciano do então Primeiro Ministro David Cameron em realizar um plebiscito para decidir se o UK (65 milhões de habitantes) deveria sair da UE (400milhões de habitantes). O interesse principal era tentar evitar a perda de deputados conservadores para o UKIP, um partido nacionalista que crescia graças ao discurso anti-Europa. Apesar do placar apertado (48% remain) e (52% leave), o plebiscito mostrou claramente que Londres (city!), Irlanda do Norte e Escócia votaram pela permanência, como mostra o quadro abaixo:
Uma vez decidido, a então primeira ministra Theresa May evocou o Artigo 50° do Tratado de Lisboa que estabelece que a saída de um país do UE, desencadearia um processo de negociação de um novo acordo comercial entre as partes em até dois anos (29/março/2019), à revelia da nação que requisitou a saída do grupo.
De qualquer maneira, parece que o temos lido até agora é o completo caos. O UK ainda não se decidiu de que maneira sairá da UE, dado que o parlamento britânico não apoia nenhuma das propostas apresentadas pela Thereza May. Aliás, a primeira ministra já perdeu três votações no parlamento apresentando diferentes propostas.
Mas evitando um pouco as idiossincrasias do parlamento britânico, o que se tem na mesa? Excluindo obviamente um novo referendo, que talvez seja prematuro ainda desconsiderá-lo:

• Primeira Opção: O UK poderia fazer parte do já estabelecido EUROPEAN ECONOMIC AREA (EEA), o qual fazem parte Liechtenstein, Noruega e Islândia –mercado único:

Neste mercado único, os membros do EEA devem atender quase todas as regulamentações da UE para garantir acesso ao mercado unificado, contribuírem com o orçamento da EU, além de permitirem a livre movimentação de imigrantes (Acordo de Schengen de 1985). Embora o UK não faça parte deste acordo. Enfim, quase uma desilusão achar que essa opção terá maioria no parlamento britânico.

• Segunda Opção: O UK poderá fazer parte de uma aduaneira com a UE “FREE TRADE AGREEMENT”, com uma tarifa externa comum (TEC), que garantiria o livre fluxo da maior parte das mercadorias, mas o país ficaria impedido de negociar novos acordos comerciais com 3°s países, além de ter de manter com eles o mesmo tratamento alfandegário adotado pela UE.

Isso sem mencionar o imbróglio entre as duas Irlandas: Irlanda do Norte (parte do UK) e República da Irlanda (país independente e membro da UE). Como estabelecer uma fronteira física alfandegária (“hard border”) entre as duas Irlandas, dado que o Tratado de 1998, conhecido como “good Friday agreement”, pôs fim a décadas de hostilidades entre os protestantes e católicos de ambas regiões? Talvez quem tenha votado para sair da UE não deva ter atinado para esse “pequeno detalhe” que assombrou o UK por décadas.

A solução apresentada seria estabelecer um “BACKSTOP” que manteria o UK em uma união aduaneira (FTA), mas deixaria temporariamente a Irlanda do Norte em um mercado único durante o período de transição (dez/2020). Proposta duramente rechaçada pelos hard Brexiters, pois além de tratar o UK como clamam, como um país vassalo da UE, tal opção poderia durar indefinidamente, que é justamente o que essa linha decisória não aceita em hipótese alguma. Fica óbvio, portanto, a impossibilidade em conciliar ambas agendas: Se de um lado as Irlandas não aceitam nenhum tipo de fronteira, por outro os hard brexiters não aceitam nenhum tipo de relação com a UE, o que fatalmente exige algum tipo de fronteira.

Ou seja, o que o parlamento britânico parece querer é sair do mercado único, da união alfandegária, proibir a imigração, mas manter as duas Irlandas sem barreiras e sem controle. Isso é incompatível.

Terceira Opção: Praticamente um no-deal seria sair da UE e fazer parte da Organização Mundial do Comércio. Proposta amplamente defendida pelos hard brexiters. Nesse caso, o cenário seria quase uma análise dos riscos de um non-deal, dado que nenhuma proposta apresentada pela primeira ministra seria aprovada. Mas vale elencar de forma rápida os principais riscos que a economia do UK sofreria juntamente com algumas nações membros da UE:
A) SERVIÇOS FINANCEIROS: Aproximadamente 12% do PIB do UK vem de serviços financeiros: Bancos que estão na City de Londres perderiam seus “passaportes” que os permitem atender clientes em qualquer país membro da UE. Vários bancos já pensam em mudar suas branches para Dublin, Paris ou Frankfurt;
B) COMÉRCIO INTERNACIONAL: Em 2017, 44% das exportações do UK foram destinadas para países da UE, além dos 14% que vão para terceiros países, os quais costuraram acordos comerciais com a UE também. Por outro lado, 53% das exportações das nações da UE são destinadas ao UK. Com um non-deal, estima-se que o aumento médio das tarifas da UE para o UK seria de 5.7% sobree tudo que é exportado, ao passo que as exportações do UK para as nações da UE sofreriam uma tarifa média de 4.3%.
C) SETOR AUTOMOTIVO: As tarifas de sobre exportações de automóveis vindas do UK passariam para 10%. Assumindo que dos 1.67 milhão de automóveis produzidos no UK, 1.3 milhão são exportados e 54% vão para nações da UE, seria de esperar que algumas montadoras como a Toyota, Nissan, Honda e BMW já passassem a apresentar alguns planos em caso de um hard BREXIT. Como se não bastasse, 79% de todos os componentes que são utilizados na manufatura dos carros no UK são provenientes da UE os quais sofrerão com maior tributação.
D) PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, ANIMAIS E PLANTAS: Segundo o sindicato nacional dos agricultores do UK aproximadamente 65% dos produtos agrícolas são exportados para países da UE, os quais certamente em caso de um no-deal passarão a sofrer com taxas alfandegárias e inspeções fitossanitárias. Para os não membros da UE, as inspeções fitossanitárias afetam mais de 50% dos produtos agrícolas (incluindo animais) transacionadas, já para membros da UE apenas 2% desses produtos são sanitariamente checados.
E) ECONOMIA: Em 2018, o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos do UK atingiu 4.2% do PIB sendo largamente financiado por capitais voláteis. Ou seja, uma saída desorganizada da UE suscitaria uma fuga de capitais do UK, levando a uma expressiva depreciação da Libra Esterlina.
Um maxi-depreciação da moeda inglesa, aliado a um maior custo de produção, dada maiores tarifas e restrições a exportações, reduziriam a lucratividade das empresas. Depreciação cambial e maior custo de produção certamente aumentariam a expectativa inflacionária da Ilha e o retorno requerido dos bonds britânicos, afetando o nível de desemprego consideravelmente.

Talvez seja um pouco cedo para arriscar um palpite sobre como será o final dessa história, mas se a opinião de um economista vale alguma coisa, apostaria em um novo referendo ou um hard BREXIT com no-deal, infelizmente com pesados efeitos para a quase frágil economia mundial e as instituições europeias. Ainda que pese as tratativas de extensão do prazo junto a Comunidade Europeia.