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Como o Brexit pode afetar o Brasil e a economia global?

Economia à brasileira: em 40 anos, duas décadas perdidas
20 de agosto de 2019

Se confirmada a decisão de o Reino Unido deixar a União Europeia, acordo recentemente firmado entre UE e Mercosul poderá ser impactado

Roberto Dumas*

Entender as idas e vindas políticas de um país abaixo da linha do Equador é até compreensível, mas ver como anda o processo de saída do Reino Unido da União Europeia assusta até os mais céticos. Agora o líder do partido trabalhista Jeremy Corbyn admite sugerir um novo referendo. Mas não dá para defender o indefensável. Ou seja, querer que o Reino Unido saia do mercado único, da união alfandegária, proibir imigração, mas manter as duas Irlandas sem barreiras e sem controle é absolutamente incompatível. Faz-se uma cara que “vamos ouvir o povo britânico novamente”. Ora o povo foi consultado e escolheu a opção errada. Perceberam que não se trata apenas de imigração e volta de empregos. O efeito da saída do Reino Unido da União Europeia será muito, mas muito pior do que isso. Já alertei sobre isso aqui neste mesmo espaço em 26 de maio último, sob o título “Brexit: quando os Lordes perdem a cabeça”.

O que se tem agora? Como esperado, a renúncia de Theresa May e a enorme probabilidade de o Reino Unido ter um eurocético do partido conservador como Boris Johnson, ex-ministro das Relações Exteriores e ferrenho defensor da saída do Reino da União Europeia, seja com ou sem acordo. A data limite para a decisão de como o Reino Unido sairá do bloco será em 31 de outubro desse ano enquanto o período de transição se dará até 31 de dezembro de 2020.

Mas o objetivo desse artigo não é de comentar novamente sobre os prejuízos que a saída do Reino Unido suscitaria no país em questão e em toda União Europeia, mas no Brasil – e também na economia global.

Fator Mercosul

Vejamos: a pauta de transações do Brasil com o Reino Unido não é grande. Não passa dos US$ 7 bilhões ao ano. Talvez o impacto não seja tão grande assim. Ledo engano. O Mercosul, bloco econômico do qual o Brasil faz parte, fechou um acordo de livre comércio com a União Europeia há poucos dias. Nos próximos 15 anos, os 4 países do Mercosul vão zerar as tarifas de importação de 91% dos produtos vindos da União Europeia, como carros, autopeças, produtos farmacêuticos, químicos, vestuários, etc. Por outro lado, a União Europeia se comprometeu a zerar as tarifas de importação de 92% dos produtos vindos dos países do Mercosul em até 10 anos. Nesse caso beneficiaram-se as exportações de suco de laranja, café solúvel, peixes, crustáceos, sapatos, tendo o etanol, o açúcar e a carne bovina que respeitar a quota anual durante o período (450 mil toneladas, 180 mil toneladas e 9,9 mil toneladas respectivamente).

Finalmente, após 20 anos de tratativas, o maior acordo comercial da história havia sido concluído envolvendo 25% do PIB mundial e 780 milhões de pessoas, apesar de ainda sujeito à aprovação dos 28 países da União Europeia e dos 4 países do Mercosul, além do Parlamento Europeu. Os contrários, como sempre, que buscam arduamente defender seus nichos de mercado e evitar a concorrência utilizando-se da falácia que o acordo destruirá empregos, esquecem que o mesmo beneficiará 210 milhões de brasileiros que finalmente poderão comprar bens mais baratos e de melhor qualidade. Como se vê, sempre existiu lobby para minorias organizadas, mas nunca para maiorias desorganizadas – neste último caso, os consumidores. Existe ainda aqueles que usam e abusam da velha desonestidade intelectual mas, neste caso, nada a fazer.

Mas se o acordo parece ser benéfico para o bem-estar da maioria da população e o intercâmbio comercial Brasil e Reino Unido não é lá tão grande, qual o problema o Brexit poderia nos causar?

Em 2018, o Brasil registrou um intercâmbio comercial com os países da União Europeia de US$ 76 Bilhões, tendo o Brasil exportado US$ 42 bilhões para aqueles 28 países ou aproximadamente 18% do total exportado por nós. Se em 3 de outubro próximo, o provável novo primeiro ministro Boris Johnson conquistar maioria de votos no parlamento, convencendo os lordes a saírem da União sem um acordo, isso certamente não apenas afetará a economia do Reino Unido, mas todas as 27 economias remanescentes do bloco. Se a União Europeia apresentar um crescimento menor dado os impactos contracionistas advindo de um Brexit sem acordo, então aqueles que exportam para esses países passarão a exportar menos, como o Brasil e os outros países do Mercosul também, ocasionando assim um efeito contágio cruzado entre os 4 países do Mercosul e os 27 países da União Europeia.

Pouco se nota empresários e exportadores atentos a esse fato. Consequências da globalização para o bem e para o mal. Da mesma forma que somos beneficiados quando a China tenta mudar seu modelo de crescimento voltando-se mais para o consumo, ajudando nossas exportações de proteína animal e soja, também somos afetados negativamente quando nossos parceiros comerciais apresentam um menor crescimento econômico, vide Argentina.

*Roberto Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Em 2016 e 2017 atuou no banco dos Brics em Shanghai (New Development Bank) nas áreas de operações estruturadas e risco de crédito