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Economia à brasileira: em 40 anos, duas décadas perdidas

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Intervencionismo, prática comum entre chefes do Executivo, é o maior inimigo do desenvolvimento do País; e seguimos sem entender o que move um presidente a esse comportamento atrasado

Roberto Dumas*

Do ponto de vista da economia, os anos 80 no Brasil foram chamados de “a década perdida” por conta de um processo inflacionário galopante, contas públicas em absoluto descontrole, contratação de financiamentos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), além de uma forte desvalorização da moeda – no caso diferentes muitas e muitos zeros para mais e para menos – por conta de planos econômicos mal elaborados.

Em 2019 caminhamos para uma segunda década perdida, lamentavelmente. Se resumirmos a ópera numa única palavra, as décadas perdidas dos anos 80 e a atual, poderíamos cravar que o intervencionismo é o alicerce principal desse péssimo estado de coisas.

Justifico: nos anos 80 os governantes foram useiros e vezeiros de práticas intervencionistas como as fracassadas tentativas de controle de preços durante os planos Cruzado, Cruzadinho, Bresser, Verão e Collor, além do relacionamento promíscuo entre o Tesouro e o Banco Central. Neste último item destaca-se a emissão desenfreada de moeda para servir aos crescentes déficits fiscais. O cenário descrito acima se repetiu de 2010 a 2019, com algumas nuances. E é patético que nada tenhamos aprendido sobre essa prática tão nefasta e, menos ainda, os nossos líderes não tenham tido um mínimo conhecimento histórico e econômico para atentar para os malefícios do intervencionismo.

Mas como se deu essa prática intervencionista nos últimos anos? Primeiro houve as atabalhoadas tentativas de melhorar nosso crescimento econômico dando dinheiro subsidiado para campeões nacionais, corte de impostos para controlar a inflação (que absurdo!) e mais subsídio para a compra de caminhões de 2009 a 2013. Com isso, nossa frota de veículos pesados teve uma alta considerável de 40% enquanto nosso PIB subiu a duras penas 9% no mesmo período. Resultado: excesso se caminhões, fretes e…. greve dos caminhoneiros em 2018 e provavelmente em 2019, com fortes impactos no PIB em 2018 e perda da confiança dos agentes econômicos no corrente ano.

A Petrobrás também merece uma observação criteriosa quando o assunto é intervencionismo. Deixando à parte a questão da corrupção, que drenou bilhões de reais em recursos da estatal, é importante assinalar que sucessivos governos (inclusive o atual) não tem se mostrado hábil. Senão vejamos: para tentar controlar a inflação artificialmente, o governo intervém desde tempos idos na tentativa de segurar o aumento do preço dos combustíveis.

E o que dizer da intervenção no setor elétrico, que joga a Eletrobras em uma enorme dívida, juntamente com distribuidoras descontratadas nas comoras de energia em leilão tendo que comprar energia no mercado livre. Como ajudar um desarranjo com mais desarranjos? O governo Dilma Rousseff nos apresentou uma solução “simples”: liberaram o cofre do BNDES para ajudar as distribuidoras e, logo após a reeleição da petista, promoveu-se um super tarifaço para recompor os caixas das distribuidoras.

Depois de tudo isso, vale novamente a pergunta: Aprendemos? Talvez? Não faz muito, a última intervenção na Petrobras, apesar da desculpa do presidente Jair Bolsonaro – na linha de quem apenas pediu explicações ao CEO da Petrobras – parece não ter convencido. Mas vamos na fé. Até porque a Petrobras acabou de vender a problemática e caríssima refinaria de Pasadena para a americana Chevron por US$ 467 milhões. É bem verdade que foi pela metade do valor que compramos, mas já é um avanço.

Que uma luz no céu se abra e ilumine nossos governantes para os reais problemas do País. Antes que os investidores debandem para nunca mais voltar.

*Roberto Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Atuou no banco dos Brics em Shanghai (New Development Bank) nas áreas de operações estruturadas e risco de crédito